Entries for July, 2007

June 30th, 2007

Japan pop show !!!

 Não, não vou falar sobre o saudoso programa de televisão no qual representantes da colônia nipônica cantavam pérolas da música de sua terra de origem... Esse post vai dedicar-se a falar sobre um outro assunto que é bem recorrente ao famoso bairro paulistano: a gastronomia oriental.

Quando digo oriental entenda-se japonesa (óbvio), mas também chinesa e coreana. Incrivelmente as três convivem maravilhosamente bem tanto em restaurantes específicos como nos 3 em 1.


 É de se pensar - e com razão - que juntar três especializações  gastronômicas pode ser algo perigoso. Realmente há lugares de aparência um tanto quanto duvidosa no bairro de ruas sinuosas, apinhado de gente e de cartazes e placas com ideogramas misteriosos para leigos como essa que vos escreve...

Ocorre que uma matéria sobre gastronomia alternativa no bairro me atraiu. Já freqüentei o circuito gastrono-trash (categoria a que pertence o restaurante Chi fu, um chinês bom mas no qual você convive com sacos de lixo transitando livremente no salão) ou gastrono-firstclass (aqui posso citar o Taizan que é um pomposo restaurante com um quê vintage e preços altos comparados com a média do bairro).

Tal matéria, postada em um blog que recomendo a visita com freqüência dado o número de dicas ótimas que ele traz (Comes & Bebes - http://marcelokatsuki.folha.blog.uol.com.br) falava sobre esse circuito alternativo e abordava os famosos 3 em 1.

Lida a matéria, escolhemos um alvo: Galvão Bueno que se apresenta como uma churrascaria com a sugestiva promoção de almoço executivo a R$ 22,00 prometendo ostras frescas, churrasco e buffet de pratos da cozinha japonesa, chinesa e coreana. Seria uma fria?

Após subir uma escadaria entra-se em um lugar que podia - dada sua arquitetura - ser o espaço de alguma dessas igrejas envagélicas que se localiza em grandes metrópoles. Com a diferença é que eles  tem um vallet (pouco disposto a trabalhar) na porta do local. Em uma primeira olhada trata-se de um restaurante de aparência simples que não difere muito de um desses self services "para a massa" que encontramos em qualquer canto de São Paulo onde haja predominância muitos escritórios. Salvo a presença de uma "lâmpada de açougue" daquelas que não se vê a muito tempo por aí, você acharia que está em um desses restaurantes que você costuma a freqüentar no final do seu VR Smart ou Visa Vale...

 Passada a primeira impressão, fomos à mesa. Confesso que me senti um pouco "estranha no ninho", pois eu e meu marido éramos os únicos ocidentais do lugar! Mas fomos em frente firmes e fortes descobrir as delícias do oriente que nos esperavam !!!

 O buffet era extenso. Para pessoas que são, na essência, "boas de garfo" como eu, a primeira impressão é: por onde começo? Mas depois de alguns minutos de contemplação decidi começar por partes: pratos frios, especialidades quentes e por fim o churrasquinho. Vale aqui incluir outro item estranho aos buffets que conhecemos: as "disco balls" ornamentando a comida. Qual a utilidade? Não sei... Seriam as moscas alérgicas a esse visual de discoteca? A luz de açougue eu até conhecia, mas esse outro artifício, só lá mesmo para ver.

Ostras terminadas rumo aos sushis e sashimis...
Nada de muito excepcional em termos de inovação: niguiris e sashimis de peixe branco e salmão e mais alguns sushis simples. Ok, em um lugar com os três tipos de culinária eu não esperava encontrar a variedade de um rodízio ou degustação de sushis.  Gosto ok, variedade a desejar, mas ainda assim o negócio continua valendo a pena. Rumo aos pratos quentes agora !

Mix diverso: missô shiru, porco agridoce, chop suey, macarrão transparente e mais alguns itens comuns a restaurantes orientais. Novamente a mesma regra do sushi: nada excepcional, mas bom na medida considerando o custo x benefício! Após algumas explorações e pequenos bocadinhos, finalmente chegava a hora de testar o acessório mais curioso do restaurante: a churrasqueira!

 Sim, quando entramos lá avistamos - eu esqueci de mencionar - mini fogareiros sobre as mesas. A função dos objetos que pareciam toca discos antigos (me lembraram vagamente minha vitrolinha de mala) eram oferecer calor suficiente para que os clientes pudessem preparar sua própria carne que fica em um espaço no buffet temperada e cortadinha esperando o preparo.

Como ficava difícil diferenciar os tipos de carne, fomos logo perguntando para o garçon que apresentou uma a uma e, percebendo que não devíamos ser grandes conhecedores das delícias ali expostas foi logo explicando "olha é tempero coreano, diferente do churrasco que vocês estão acostumados...". Agradecemos a proatividade do rapaz e fomos à luta!

 Confesso que apanhamos um pouco do equipamento. Algumas pancetas (= bacon de tirinha cortado mais grosso) tostaram e viraram carvão, a costela ficou mezzo crua mezzo tostada, mas depois de algumas tentativas fomos pegando o jeito. Deu uma certa vergonha de ver senhorzinhos beeem velhinhos mandando brasa e a gente apanhando, mas a idade nos fará sábios também no quesito gastronomia, assim espero...

Realmente o gosto de churrasco em nada lembra nosso "churrascão" de final de semana com amigos regado a cerveja, pão, vinagrete e caipirinha. Ele soa mais agridoce e pode parecer estranho aos não acostumados. Considerando minha origem indonésia e meu pai que me entupiu de coisas agridoces desde a tenra infância o gosto da iguaria não me causou estranhamento mas sim um gosto de "quero mais" para entender melhor o tempero e, quem sabe, aprender para fazer em casa para receber os amigos!

 Balanço final: vale a pena como experiência gastronômica. Ainda mais se a pessoa não conhecer ou não for muito dada a experiências estranhas. Afinal, dada a variedade de pratos, alguma coisa ela há de encontrar no buffet para saciar-se. O atendimento é bom, dentro do que se espera de um restaurante desse tipo e o espaço é grande, sem muvuca. Custo benefício também ótimo: gastar R$ 30,00 para comer à vontade e tomar um par de cocas é uma ótima pedida. O único contratempo é o cheirinho de "grelhado" que vai ficar em você, mas vale o trade off...

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Posted by stelline at 10:58 PM | 2

July 4th, 2007

13 Going on 30

 Não vou falar de filmes cabeça...
Não vou falar de meu amor por Hitchcock nem de roteiros complexos...
Não vou falar sobre minha vontade de ser cineasta não realizada nem sobre como eu gostaria de ganhar a vida escrevendo sitcoms...

Vou falar de um filme bestinha de tudo, daqueles que você assiste na "Sessão da Tarde" quando não foi trabalhar em algum momento...

Cheguei em casa depois de um hh com minhas amigas... Incrível que estamos crescendo... Nada de falar de rapazes ou balada, falamos de trabalho, viagens, casamento, enfim conversas de "gente grande" !!!

E cheguei em casa - sozinha pois meu marido estava trabalhando - liguei a TV e eis que passava "De repente 30", uma comédia romântica na qual uma menina totalmente loser de 13 anos acorda com 30...

E lá se vão n desventuras, mas não vou estragar contando aqui (até porque o filme já é bobinho se eu contar então já era!).

Eu fui apresentada pra "13 Going 30" quando dava treinamentos. Nunca tinha visto e começamos a usar para falar sobre mudanças e as dificuldades de aceitação que temos...

E o filme, mesmo na sua trama pouco inspirada ilustra bem essa virada na vida, a fase em que saímos da adolescência e passamos a viver como adultos, algo antropologicamente interessante e um assunto que tem me feito pensar muito como eu e todos aqueles que me cercam estão mudando...

We´re getting older...

 

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Posted by stelline at 12:23 AM | 4

July 8th, 2007

Algumas relíquias dos anos 80...

Ok, é um tema batido, eu sei... Mas temos que concordar anos 80 produziram muitas coisas que nós saudosistas adoramos relembrar e com razão, afinal elas renderam lembranças ou questionamentos que nos marcaram para todo o sempre...

Um primeiro exemplo foi a figura de Boy George. Eu, uma pobre criança, não conseguia enteder porque o "rapaz" se vestia tão estranhamento. "O moço se veste de menina, mamãe?" foi uma pergunta recorrente que fiz. Ou como disse meu marido, o cantor inglês era uma figura intrigante para as crianças que não conseguiam decifrar o gênero exato do ser...

Esses dias, ouvi Karma Chameleon no carro (sim, ganhei um mp3 player automotivo e virei a rainha das coletâneas gigantes de temas diversos) e parada no semáforo não pude deixar de prestar atenção nas estrofes iniciais da música, que já davam a letra de que o rapaz tinha lá suas dúvidas...

  "I'm a man without conviction, I'm a man who doesn't know
How to sell a contradiction, you come and go, you come and go"

Status atual desse ícone dos anos 80:

Conseguiu se arrastar para os 90, ganhou uma sobrevida com a música tema do filme "Crying Game" (Traídos pelo desejo). Mas hoje alterna sua vida entre prisões por porte de droga e por tentativa de estupro de moços da vida...

O outro ícone que também tem povoado meu player é um mocinho contemporâneo do Sr. George, porém enquanto minha memória do primeiro remete à algo andrógino, o segundo remete à figura de um vulcão sexual humano. Vejam bem, eu era criança e a minha memória de trailers do filme Purple Rain prometendo ineditismo (o famos pela 1a vez na TV do SBT) mostravam ele agarrando uma mocinha, ela arrancando a blusa para ele, enfim uma coisa assim "sensual".

Ok, mesmo criança eu me perguntava se ele seria um cara "bonito" com aqueles sapatos de salto e golas gigantes (ufa, tenho bom senso desde a tenra infância!).

Hitmaker, Prince conseguiu sobreviver melhor que Boy George. Emplacou diversos hits e compôs pérolas pop que foram eternizadas por ele como "Nothing Compares 2U" que todo mundo lembra na voz da carequinha maluca Sined O´Connor em início de carreira antes dos surtos anti-papa !

Depois o moço seguiu compondo mas sem grandes sucessos se propôs a mudar de nome, adotar um símbolo de gosto duvidoso como alcunha e mais algumas atitudes de freak para chocar a opinião pública.

Todo mundo canta "Kiss" nas baladas, balança ao som de "Purple Rain" ou relembra bons tempos ouvindo "Red Corvette", mas se é pra falar de letra inspirada, como não lembrar da homenagem aos DRs que ele faz em "When doves cry"? É impagável!

"How can you just leave me standing?
Alone in a world that's so cold
Maybe I'm just 2 demanding
Maybe I'm just like my father 2 bold
Maybe you're just like my mother
She's never satisfied
Why do we scream at each other
This is what it sounds like when doves cry."

Status atual desse ícone dos anos 80:

Foi mais esperto e conseguiu "ressucitar" a carreira. Hoje está de volta com shows em tom de "recordar é viver" e lançou no mercado um último álbum com aceitação razoável. Al[em disso tratou de ficar amiguinho e fazer shows com a sua versão atual feminina, srta. Beyoncé e pegar carona no sucesso da mocinha. Apesar de tudo, ele continua usando sapatos com salto (pra quem ele quer provar que não é um tampinha?) e encontra-se em uma situação menos lamentável que o Karma idol citado acima.

Currently listening to: Nothing compares 2u - Sinéd O´Connor
Currently reading: Revista Alta Gerência n.3 - aprovando o texto da derradeira
Currently watching: Adeus Lênin - já vi e resolvi rever, vale a pena!
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Posted by stelline at 03:36 AM | 2

July 12th, 2007

Lembrança infantil...

Além da hiperatividade e uma leve dislexia, eu era uma criança fascinada por brinquedos de menino. Vejam bem, eu gostava da Barbie, das bonecas, de brincar de casinha e tudo mais, mas confesso que os carrinhos e os Comandos em Ação me atraíam...

Ocorre que fui criança nos anos 80, época do He-Man, Thundercats, entre outros... E essa semana, passeando descompromissadamente na internet vi o anúncio do filme "Transformers". De repente tudo se fez claro na minha memória e lembrei dos meus dias passados com a cara colada na tv assistindo o desenho dos carrinhos que viravam guerreiros, uma coisa assim tipo série japonesa (Jaspion refresca a memória de vocês? rs).

E foi aí que veio mais uma lembrança à minha mente: certa vez eu fui com meus pais fazer compras na Cooperhodia ( sim, para os jovens do ABC a conhecida Coop tinha esse nome do passado e você tinha que ter carteirinha pra comprar lá ) em um sábado de calor. Se um supermercado hoje já é infernal funcionando 24h e com muito mais funcionários, imagine em meados dos anos 80, na época daquelas filas da "carne", "pão" e outras coisas que "entravam em falta" no mercado. Hard times at all...

Mas eu já tinha aí meu espírito consumista e acompanhava meus pais nessas aventuras. E por conta disso, mamãe resolveu me recompensar pelo bom comportamento e disse "filha, vai lá e escolhe um brinquedo". Lembro como se fosse hoje os corredores da seção de brinquedos (pífios para minha altura hoje, mas na época gigaaantes). Andei, olhei as bonecas, mas eis que minha visão parou numa grande vitrine no final da seção com brinquedos pequenos e caros que você pagava separado e uma funcionária pegava para você.

 E lá estava meu objeto do desejo: um transformer azul e vermelho liiindo à minha espera. Me postei à frente da tal vitrine e apontei para a moça "é esse!". Ela me olhou e acenou negativamente com a cabeça...

Olhei para minha mãe temendo que ela tivesse mudado de idéia acerca do meu presente e de repente ouço a pérola "senhora, isso é um brinquedo de menino, veja bem, não é bom dar isso para sua filha. Essa coisa de menina brincar de carrinho, já sabe no que dá...".

Minha mãe, visivelmente incomodada, pediu que a mulher me entregasse meu transformer e disse que tinha brincado de carrinho a vida inteira com meu tio e nada havia acontecido. Eu, a essa altura, já nem ouvia mais o bate-boca, só aguardava o meu prêmio, o tão sonhado Transformer. Minutos depois, eu e minha cabeleira ruiva natural à época atravessamos o mercado com o "troféu" na mão, vitoriosos.

Esse comentário da mocinha da seção de brinquedos me marcou... Não exatamente pela maldade (que só fui perceber muitos e muitos anos depois), mas pela "sensação de injustiça" que senti na época de ter que seguir uma "norma social"...

Só para arquivo, depois do transformer ainda vieram uma van amarela revell e uma picape monstra enorme (ambos ainda vivem na casa dos meus pais em SBCampo). Eu trabalhei prazeirosamente na GM e ainda sonho em voltar pra indústria automobilística... Adoro carros, sei modelos, motores e marcas... Meu maior sonho é correr um Rally Paris-Dakar...

Adoraria encontrar a moça autora da "pérola" que ouvi para agradecê-la por ter me feito questionar um adulto tão cedo na vida... E se o leitor está passando por aqui pela primeira vez, só pra constar: sou hetero, casada, amo carros e não sei de onde tiraram a estupidez de que só homem gosta desse tipo de coisa e pior, arrastaram isso pela sociedade ad eternum...

Ah, e esse não é um post sobre feminismo, não simpatizo com movimentos de "emancipação" que na real acabam sendo mais segregacionistas do que qualquer outra coisa... Minha única intenção foi relembrar uma passagem da infância...

Currently listening to: (Tori Amos) Cornflake Girl + Sorta of Fairy Tale (Amooooo)
Currently reading: (Revista Caras)Ninguém é de ferro e uma fofoquinha vai bem!
Currently watching: (Jogo do Brasil Sub 20) Televisão no mute!
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Posted by stelline at 02:34 AM | 5

July 19th, 2007

Campanha relaxa e posta, eu aderi...

Apoiando a campanha do amigo Bruno em prol da liberdade de expressão e da internet... Mais infos em: 

http://caldinas.blogspot.com/2007/07/campanha-relaxa-e-posta.html

Posted by stelline at 03:40 AM | Pode falar...

Sobre perdas... filosofias estranhas durante um dia de serão...

 Perdi há dois meses um relógio vintage que amava...
Achei que ele nunca mais voltaria e eis que minha empregada resolve fazer uma limpa em minha sapateira e acha o objeto...

Na verdade eu não escrevo exatamente para falar do relógio, mas sim de sensações de perda: das complexas às banais...

Vejam bem, perder meu relógio é uma perda que não afeta ninguém fora eu mesma (até porque não consigo ser pontual de jeito nenhum!). Mas e casos como o acidente de avião que presenciamos ontem? Você acordar um dia com a vida revirada? Ou então descobrir uma doença súbita?

Seríamos realmente preparados psico e somaticamente para lidar com perdas e saber fazer delas oportunidade para reinventar-se e seguir adiante?

Sinto pelo post filosófico, porém percebo que tenho "perdido" tempo demais da minha vida dedicando à causas que não sei se procedem... Será que um emprego estável e status de vida é a saída?

Currently listening to: Come with me - The killers
Currently reading: Você S/A
Currently watching: Rambo Pai Natal (vale procurar no YouTube)
Currently feeling: tired
Posted by stelline at 03:48 AM | 1

July 23rd, 2007

Sobre as diferenças entre seres humanos...

Já sofri por ser diferente... Vezes por ser alta demais, branquela demais, desengonçada, com aparência pouco comum... Outras vezes senti na pele a repulsa que as pessoas têm, às vezes, das pessoas que pensam um pouco diferente ou se atrevem a dizer aquilo que pensam...

Não estou aqui para lamentar a vida ou fazer posts insanos como o anterior, muito menos fazer desse blog um muro de lamentações. É fato que eu tenho me perguntado, por vezes, o que fazem as pessoas que pensam diferente ou extremamente sinceras nesse mundo...

E embora, eu tenha jurado não ficar transformando o blog em lugar de textos colados e copiados, faço aqui uma licença poética para um conto maravilhoso da Clarice Lispector no qual as diferenças são tocadas de forma tênue e poética...

Salve Clarice e suas epifanias !


 

Tentação (Clarice Lispector)

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

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Posted by stelline at 01:57 AM | 2

July 25th, 2007

Capas de disco...

Depois de um post com várias visitas e discussões pertinentes como o da minha infância x Transformers, seguiu-se um texto nonsense postado numa madrugada durante o trabalho e posteriormente uma homenagem à Clarice Lispector e um quê de deprê no último texto... Chega !!! Agora é hora de voltar à velha forma e aos assuntos aleatórios, isso sim é a alma desse blog...

Tudo começou com uma brincadeira entre amigos onde alguém enviou uma capa medonha de um vinil jurássico do ManOwar (alguém se lembra deles?) no qual os integrantes da banda estão em trajes sumários com um estilo "viking meets caveman". Por sorte, encontrei essa pérola novamente para deixar que vocês possam julgar a "obra de arte" à vontade.

Pois bem, começamos a discutir capas  de álbuns e nossa relação com elas e percebi que a maioria das pessoas com quem falava tinha uma opinião do tipo "gosto, não gosto" ou então "feio, bonito" e, mais ainda, elas se espantavam com meus relatos sobre viagens acerca das capas como imaginar que eu podia voar na pipa de Kate Bush no "The Kick Inside" ou então que encontraria meu nome escrito escondido em algum lugar naquela bagunça da capa do "Sgt Peppers" dos Beatles...

 Ainda em determinado momento levei o assunto para outra roda de amigos que não a original da discussão e ouvi a máxima "pra que ligar para aquelas caponas de papel, um cd cabe em qualquer lugar e agora então, nem precisa mais dessas coisas...".

Desolação ! Como assim o cd é melhor? Onde essas pessoas estavam na época dos bolachões com suas capas de abrir em partes, com fotos gigaantes, o disco num saquinho com formato de meia lua? Ah, antes que me perguntem todos era quase trintões ou já passados dessa idade então, eles conheceram vinil, sim! Não havia desculpa para tal...

Enfim, opiniões alheias à parte, modismos e saudosismos foras, sim eu amava vinil. Ok que nada substitui a praticidade dos mp3s players e o mundo da música em suas mãos podendo conter desde pérolas trash dos anos 80 a maravilhas do mundo indie, mas ainda assim sinto falta dos bolachões e seus chiadinhos entre troca de faixas que me ajudavam adormecer enquanto eu estava naquela fase "numb" entre estar acordada e dormindo...

 Sinto falta de sentar no chão com aquelas capas gigantes curtindo cada detalhe da arte como relevo, textura (como aquele álbum do Elton John dos idos de 70 que era aveludado) ou então resistir à tentação de cortar o Sgt Peppers pra pegar as medalhas e condecorações e colocar na sua roupa como os rapazes de Liverpool. E cantar junto, acompanhando as letras naqueles encartes gigantes? Eu me sentia quase uma daquelas "menininhas de coral" segurando a capa e soltando lá meu gogó pra acompanhar...

Mas a tecnologia veio e não tenho mais minha vitrolinha de mala que eu abria em qualquer lugar. Os Beatles acabaram e Kate Bush não faz mais capas de cd lisérgicas... Elton John abandonou as capas de veludo e não se fazem mais discos dos Carpenters com as letras garrafais das músicas pra cantar junto !!!

Tudo bem, eu cresci... Mas nada me impede de continuar amando vinil e capas de LPs antigos... Muito menos de eu dedicar alguma parte do meu tempo, nas visitas à casa dos meus pais, em admirar meus velhos discos e imaginar se realmente sou uma doida sozinha nesse mundo que sente falta dos chiados e "puladas" de faixas...

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Currently reading: ELLE - Especial Jeans (Babando nos modelitos)
Currently watching: Desperate Housewives (Amo a versão "madura" de Sex and City !)
Currently feeling: working
Posted by stelline at 02:53 AM | 3

July 30th, 2007

Se melhorar, estraga...

 Uma dúvida existencial: vocês já cumprimentaram seres humanos que respondem "está tudo ótimo, se melhorar estraga!". Sempre que ouço essa máxima sinto-me intrigada: serei eu uma pentelha com complexo de Hardy (ó céu, ó vida, ó azar...) ou seria esse meu interlocutor uma pessoa otimista demais, daquelas que não se abala com nada nessa vida...

Inicialmente achava essas pessoas estranhas, por vezes acomodadas do tipo "qualquer coisa tá boa". Depois passei a considerá-las heróicas pelo seu pollyanismo de ver o mundo... Hoje, não sei o que pensar. Porque por mais easy going e otimista que eu seja, sempre acho que tem algo a melhorar...

Quem será que está certo: os hardies ou os pollyanos ??? Acho que um mezzo a mezzo seria o ideal !!!

Currently listening to: Stop, Look, Listen to your Heart (Diana Ross & Marvin Gaye)
Currently reading: Vejinha - Óootema a matéria do Amaury Jr !!!
Currently watching: Compacto "The best of Jogos Panamericanos" na Sportv
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Posted by stelline at 01:23 AM | 3